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“Veneno é veneno, sempre” - BIOdivEmFoCo com Sebastião Pinheiro

“Veneno é veneno, sempre”

O Biodiversidade em Foco desta terça-feira, 23, contou com a encantadora presença de Sebastião Pinheiro, membro do Núcleo de Economia Alternativa da UFRGS. O tema era agrotóxicos, motivado, também, pelo movimento criado pela Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, lançada pela Via Campesina e outras organizações e movimentos do campo socioambiental.

O engenheiro agrônomo e florestal é um grande incentivador e promovedor da biomineralização do solo como tecnologia social de produção agroecológica e promotora da soberania alimentar.

Provocando a sala cheia, Tião iniciou sua exposição com uma citação curiosa do casal cangaceiro-guerrilheiro Dadá e Corisco “o futuro está em cima do futuro, e não em cima do passado”.

Para ele, exercer a cidadania é se antecipar. Na indústria dos alimentos (na verdade Império Agroalimentares que controlam vastos territórios e recursos naturais no mundo), é necessário estar com “um olho no peixe e outro no gato”. Os agrotóxicos são um braço da complexidade desse mercado; na verdade, uma tecnologia já superada, na mesma da matriz energética do petróleo (de onde provêm os venenos).

Por isso, para Sebastião Pinheiro, a “Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida”, lançada em abril desse ano, pode não surtir os efeitos desejáveis.

Os impérios do agronegócio estão entrando no mercado dos orgânicos , promovendo o aumento do preço dos seus produtos e facilitando a adesão dos agrotóxicos genéricos que já estão em pauta no Congresso Nacional.

Ele afirma que uma campanha com enfoque mais limitado nos agrotóxicos poderia preparar a sociedade para a nova demanda de consumo que são os orgânicos. Grandes empresas como Syngenta e Bayer não estão mais produzindo agrotóxicos, começam a se dedicar a esse novo mercado. “O país que mais fabricava veneno, a Alemanha, tem curso de agricultura orgânica desde 1981”, observa Pinheiro. Já estão disponíveis insumos orgânicos (inseticidas, fertilizantes, etc.) em escala industrial, utilizando como matriz tecnológica a fermentação e a engenharia genética.

“Vamos comprar saúde do solo na mesma loja do DDT? Agroecologia é conhecer o solo ou comprar na mesma loja outro produto?”, questiona o ambientalista. Os alimentos orgânicos também são alvo da mercantilização e já estão incorporados ao sistema, assim como foram os venenos, na metade do século passado. Essa é uma estratégia de “substituição de insumos“ há muito tempo denunciada pela agroecologia.

O resultado desse processo pode ser o encarecimento dos alimentos de qualidade e elitização da alimentação. Para os pobres, a alimentação fornecida (principalmente pelos governos - havendo sempre o risco de assistencialismo e manipulação eleitoral) continuará envenenada.

Aliás, tramita no Congresso a proposta de retirar da ANVISA o controle dos agrotóxicos.

Luta necessária

O que é preciso fazer, segundo Pinheiro, é lutar para que os agrotóxicos não adquiram na atualidade o mesmo status dos anos 80, quando era a pauta do momento. É uma luta do passado, como Corisco nos lembra. “o veneno é um problema da indústria, não da sociedade. No entanto, ainda é difundida ideia de que “o veneno não faz mal, o que é prejudicial é a má utilização do produto”. De forma enfática, Pinheiro coloca “veneno é veneno, sempre”.

Apresentando dados e informações, Pinheiro refletiu sobre um contexto complexo, no qual diversos elementos se articulam. O Rio Grande do Sul tem maior incidência de câncer de mama do país. Esse ano vai ocorrer a 18ª Corrida pela Vida do Instituto do Câncer Infantil do Rio Grande do Sul - ICI-RS, neste sábado, 27, vai acontecer o Mc Dia Feliz. A questão levantada pelo ambientalista é simples e fundamental “o que vamos dar para nossas crianças: alimento orgânico ou uma dose diária aceitável?”. Agora, quem vai ter acesso ao alimento orgânico?

Para ele, a política que está sendo desenhada é fascista e facínora…

A grande falha que existe em nossa sociedade, segundo o pesquisador, é que não fomos educados a enxergar o contexto. Entre diversas ideias, Sebastião Pinheiro demonstrou convicção: “não dou a chance de determinarem onde vai ser a luta e como ela vai ser travada”. A luta contra os agrotóxicos culmina no fim da utilização de veneno em todos os níveis e, para se avançar, é necessária cidadania, “só ela pode regular essa realidade”.

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